domingo, abril 17

"Se vivêssemos eternamente significaria termos uma velhice eterna.
Alguém está interessado em ser cada vez mais velho ao longo de uma eternidade?"


José Saramago

terça-feira, abril 12

Outonais



Baila uma folha no ar.
Cai uma fruta no chão.
A fruta pratica suícidio.
A folha, levitação.

Para dar seu show de outono,
o plátano talvez precise
que o vento toque um blues
enquanto faz striptease.

O vento cassou das folhas
o direito à amplidão.
Lamentam, nos galhos, os pássaros.
Cantam os sapos, no chão.

Com esse ouro-laminado
que tem o Guaíba no outono
quando o sol quer se sentar
as águas lhe servem de trono.

Das folhas faço uma cama,
das samambaias cortinas.
E quando o riacho cantar
só para te amar, menina.

A primavera tem quinze anos,
o inverno tem setenta.
Vinte anos o verão,
o outono tem quarenta.

Nesse outono tão azul
tão de leve o tempo avança
que as horas não correm, dançam
enquanto o tempo descança.

Poesia: Luiz Coronel


quarta-feira, abril 6

Nunca fale com espíritos do submundo

Madrugada chuvosa. Encharcada, Sarita, enfermeira plantonista da santa casa, se abriga sob uma parada de ônibus. nenhuma alma viva na rua. Até que ela escuta uma voz rouca ao longe:
- Sarita...
Um frio percorre a espinha de Sarita, que arregala os olhos e permanece inerte:
- Sarita...
- Quem chamou?
- Eu... O Zé...
- Mas que Zé?
- Aquele que vai puxar seu pé...
Nesse momento, Sarita sente uma presença, mas não havia ninguém:
- Pelamordedeus. se eu fiz alguma coisa pra alguém do outro mundo, juro que foi sem querer.
- Sarita...
- Ai, meu Deus.
- Você me deixou, Sarita...
- Deixar você? Mas eu nunca tive nenhum homem na vida e...
- Deixa eu terminar a frase, Sarita... Você me deixou na maca... Me deixou morrer...
Sarita se benze:
- Cruz credo! Mas o que você tá dizendo?
- Aquela noite... Eu cheguei ensanguentado no hospital...Sujo... Eu era um mendigo, Sarita... E você me deixou na maca... Mal me tocou...
- Quando isso?
- Há três longos anos...
- Mas faz muito tempo. Entra gente assim no hospital o tempo todo. Você não quer que eu me lembre de você e...
- Sarita, cale a boca...
- Mas eu preciso me defender e...
- Não adianta se defender... Eu vim para te levar...
- Me levar?
- Sim... Levar para o inferno, que é de onde eu vim...
- Do inferno? Aqui é o inferno...É só ver este tempo infernal, esta chuva...Olha, me desculpe, mas, se foi para o outro inferno, boa coisa você não era...
- Fui para lá por sua causa...
- Desculpe, mas eu acho que você está enganado.
- Não, enfermeira Sarita. Não estou...
- Existe alguma maneira de me redimir? Não posso morrer agora que fui promovida a enfermeira-chefe.
- Não existe nada que eu possa fazer. Essa é a sua hora.
- E com a ordem de quem você vai me levar?
- Com a minha própria ordem...
- E o seu superior está informado disso?
- Superior?
- Sim... O chefe do submundo do inferno...
- Ele não precisa saber...
- Como não? Você acha que pode decidir quem vai para o inferno ou não, Zé? Não é assim.
- Não?
- Claro que não. Veja: agora que fui promovida a enfermeira-chefe, nenhuma enfermeira está autorizada a certos procedimentos sem a minha autorização. Você não passa de um enfermeiro no hospital do inferno. Falta muito ainda, vai por mim. Sei como é.
- E como eu consigo?
- Ah, é fácil. Assim que alguns mendigos bebuns surgirem no seu caminho, faça de conta que não os viu.
E essas foram as últimas palavras de Sarita, que não desfrutou um dia sequer sua promissora carreira de enfermeira-chefe da santa casa. Tudo porque falou demais com uma alma vingativa, que vinha das profundezas do inferno.

sexta-feira, abril 1

Se Fossem Fadas Espertinhas

Todos os contos de fadas que conhecemos retratam donzelas sonsas e sem escolha, que acabam se casando com príncipes que estavam apenas de passagem, os quais nem sequer haviam aparecido na história.
Se esses contos tivessem sido realmente contados por fadas, então seriam fadas com a auto-estima baixa e sem imaginação, se essas fadas, no entanto, fossem espertinhas, muitas versões seriam bem diferentes. A começar pelos títulos. Por exemplo:
A Beijoqueira Dorminhoca!
Há muitos e muitos anos, havia um rei e uma rainha que deram à luz uma menina. O casal que só tinha um aparelho de jantar de onze peças, resolveu que seria mais fácil não convidar a décima segunda fada do que pedir um pratinho emprestado no reino vizinho.
Idiotas! O jantar seria apenas para as fadas? Eles não jantariam?...
Tolos! Enquanto as fadas desejavam coisas boas à criança, a décima segunda fada chegou irritadíssima por não ter sido convidada. Por isso, jogou uma praga na menina, que espetaria o dedo numa roca de fiar quando fizesse quinze anos e , então, morreria. Todos começaram a chorar. A décima primeira fada, porém, que ainda não tinha feito seu desejo, disse que não poderia retirar o desejo da última fada, mas conseguiria mudá-lo. Ela disse que a moça não morreria, mas que adormeceria e despertaria com o beijo doce do verdadeiro amor.
Bom, aí a princesa cresceu. Os pais baniram as rocas de fiar do reino, mas a fada má deu um jeitinho e aí a moça espetou o dedo. Então ela dormiu por cem anos, junto com todo o castelo.
Um belo dia, o príncipe chegou e a beijou. Quando ela despertou, perguntou o que tinha acontecido e o homem lhe contou toda a história. Pervertida, ela pediu que o príncipe gritasse pela janela que ela tinha acordado. Quando ele parou ma beirada, ela o empurrou e ele se espatifou lá embaixo.
Por quê? Porque gostou tanto de acordar com um beijo doce, que resolveu que ficaria um bom tempo se fazendo de adormecida, só para receber cada vez o beijo de um príncipe diferente.
E foi assim que a Beijoqueira Dorminhoca conseguiu ficar com os príncipes mais gatinhos de todos os reinos vizinhos.


Morena de Bronze e os Sete Sarados
Era uma vez uma linda donzela, moreninha de tanto pegar um bronze no laguinho perto do castelo. Ela tinha uma madrasta chata e invejosa que tentava obrigá-la a trabalhar, mas Morena de Bronze não queria nem saber.
Um dia a madrasta resolveu dar um chega prá lá na Morena de Bronze, que estava desenvolvendo um popozão muito mais interessante que o dela. Mandou, então, um caçador afugentá-la, mas o homem achou que dar um fim naquela morena era muito desperdício e, por isso, mandou-a fugir. Mas antes do caçador dar as dicas da fuga, ele teve uma ótima noite de sexo com a morena mais gostosa do pedaço.
Morena de Bronze aproveitou, porque jamais tinha gostado daquele castelo sem nenhum estilo. Esperta que era, embrenhou-se na floresta e logo foi entrando numa casa e se apossando de tudo que existia ali. Até que chegaram os donos da casa: sete mineiros sarados e cheios da grana, já que extraíam diamantes. O grupo ficou hipnotizado e excitado com o popozão da donzela.
A Morena de Bronze não pensou duas vezes. Entediada de viver naquele vale sem graça, rumou com os sete para as Ilhas Caribenhas, onde viveu como rainha pelo resto de seus dias.


A Fera já Era
Era uma vez um comerciante pobre que tinha três filhas. Duas eram horrorosas, e por isso revoltadas, e uma era linda, por isso um pouco auto-suficiente.
Um dia, o comerciante se perdeu durante uma tempestade na floresta e se abrigou num castelo. Quando a chuva passou, o homem resolveu voltar para casa, mas não sem antes roubar uma rosa. Mal agradecido!
O dono do castelo, então, que era um bicho horroroso, declarou que o homem seria seu prisioneiro por ter roubado. Pensando melhor, a Fera resolveu trocar o homem por algo melhor e, ao saber que tinha três filhas, ordenou que ele voltasse para casa e lhe trouxesse a mais interessante delas. Cagão, o comerciante voltou chorando para casa e contou o ocorrido.
A filha mais bonita achou que essa Fera não seria de nada e então resolveu ir até o castelo. Chegando lá, percebeu como a Fera deveria ser rica. Era feia, é verdade, mas o que importa quando se é milionário? Sem pestanejar, a moça foi logo se entregando para a Fera, que ficou doidona, porque nunca tinha encostado sequer num fio de cabelo de uma mulher. Foi um sexo tão selvagem, que a jovem pensou que morreria da próxima vez. Por isso, bolou um plano. Misturou um remedinho na ração matinal do bichano, que caiu duro alguns minutos depois de ter comido.
Foi assim que a moça ficou com o castelo e com toda a grana da Fera, mandando de vez em quando uma mesadinha para a família.
"Neste mundo o mais belo não deve apenas te agradar,
Ele domina e domina somente porque se mostra."


Schiller

Dez Dicas Estranhas Para Viver Melhor

Tome banhos gelados
Seja religioso
Cante no chuveiro
Use fio dental
Não relaxe demais
Demore para ter filhos
Tenha três orgasmos semanais
Fique um pouco estressado
Consuma comida temperada
Beba água com minerais

quinta-feira, fevereiro 24

Tempo

O tempo sempre escorrega por entre o meus dedos. Os dias, as semanas, os anos escapam sem que eu os perceba. Quando dou por mim, lá se foi a infância, quando dou por mim, já não restou nada da adolescência. E as horas se esvaem enquanto aprendo a ser adulta. E nem mesmo há tempo para assimilar as aprendizagens.
Quando eu era criança, sempre quis ter dezoito anos de idade. Na minha concepção, ter dezoito seria conquistar o grau máximo de liberdade. Com essa idade eu poderia ter um namorado.Com essa idade, eu até poderia colocar meu desajeitado corpo num vestido. Com essa idade, eu poderia assitir a todos shows, principalmente U2 e Simple Red, Rolling Stones...
Num piscar de olhos, fiz dezoito anos. Foi então que descobri o quanto ainda era infantil para namorar. Eu ainda não gostava de usar vestidos, parecia desajeitada demais dentro deles. Eu tinha vontade de assistir a vários shows. Fazer dezoito não me pareceu em nada com o que eu imaginava. Não foi o máximo.
Quanto à liberdade, quem inventou que ela existe? Eu sabia o que eu queria: Avançar no tempo. Ir para a aeronáutica para ser piloto de caças. E ser logo adulta. Assim eu seria realmente independente.
A melhor coisa em ser adulta? Descobrir que não existe independência porque o tempo é eterno. E o tempo aprisiona. A independência é uma decisão, um estado de espírito. A liberdade, como a concebemos, é uma ilusão, pois não é possível. Sempre seremos ligados à natureza ao redor. Depois do cordão umbilical, os pulmões...Depois dos pais, os filhos...Depois do terreno, o espiritual... Ter liberdade é compreender a perene dependência entre os seres e os tempos e aceitá-la.
Ainda me sinto infantil(sou egoísta) num relacionamento, mas já me sinto mais a vontade dentro de um vestido.
Será preciso romper a dependência com a minha infância e adolescência? Será possível rompê-la? Como cortar uma planta pela raiz e, ainda assim, mantê-la inteira? Agora, nesse corpo e nesse tempo adulto, rememoro a infância e adolescência e percebo que elas ainda estão em mim. Sou uma mistura. Sou uma criança, adolescente, adulta e já um pouco velha.
O tempo sempre escorrega por entre os meus dedos quando tento compreendê-lo. Os dias, as semanas, os anos escpam quando não percebo que estão todos aqui, em mim, simultaneamente. Quando dou por mim, aqui está a infância; quando dou por mim, ainda sou uma adolescente. E enquanto aprendo a ser adula, vou assimilando que alguém inventou dividir a vida em fases. Mas no fundo somos, ao mesmo tempo, tudo o que fomos, o que somos e o que seremos.